A empresa Três Irmãos, de Campo Alegre, no Planalto Norte de Santa Catarina, teve a falência decretada pela Justiça após 55 anos de atividade. A fabricante de móveis acumula uma dívida estimada em R$ 133 milhões e estava com a produção paralisada desde maio de 2026.
A decisão judicial foi assinada na segunda-feira (10) e determinou a lacração da fábrica matriz e das demais unidades da empresa. Entre os estabelecimentos alcançados pela medida estão as unidades de Campo Alegre e Caçador.
Com a decretação da falência, a administradora judicial Recupere ficará responsável por localizar, relacionar e avaliar máquinas, imóveis, equipamentos e demais bens pertencentes à empresa. Posteriormente, o patrimônio deverá ser vendido para arrecadar recursos destinados ao pagamento dos credores.
O valor de R$ 133 milhões ainda poderá sofrer alterações durante o processo, conforme novos credores sejam habilitados e as obrigações da companhia sejam analisadas.
Recuperação judicial não conseguiu evitar a falência
A Três Irmãos entrou em recuperação judicial em 2024, na tentativa de reorganizar as finanças e manter as atividades enquanto negociava as dívidas.
A situação, porém, se agravou. Em junho deste ano, o Ministério Público pediu a conversão da recuperação judicial em falência. Entre os problemas apontados estavam o descumprimento de obrigações assumidas durante o processo, débitos com credores e dificuldades relacionadas à situação patrimonial da empresa.
A decisão judicial cita aproximadamente R$ 210 mil e € 175,5 mil em débitos, além da ausência de comprovação sobre o destino de cerca de R$ 3,25 milhões obtidos com a venda de ativos autorizada anteriormente.
Também foram apontados problemas envolvendo parcelamentos tributários e débitos federais, além da retirada de máquinas de grande porte da sede sem autorização judicial.
A produção da empresa foi totalmente interrompida em 14 de maio de 2026.
De uma pequena marcenaria ao mercado internacional
A trajetória da Três Irmãos começou em 1971, em Campo Alegre, como uma pequena marcenaria familiar. Nos primeiros anos, a empresa chegou a fabricar carroças antes de direcionar sua produção para móveis de madeira maciça.
Com o crescimento, passou a fabricar mesas, cadeiras e outros produtos. Em 2009, realizou a primeira exportação para a IKEA, ampliando sua presença no mercado internacional.
A empresa continuou crescendo nas décadas seguintes. Em 2016, adquiriu uma unidade industrial em Caçador e, em 2020, inaugurou um parque industrial com mais de 16 mil metros quadrados em São Bento do Sul. Essa unidade foi fechada em 2023.
No auge das atividades, a Três Irmãos chegou a manter cerca de 500 empregos diretos. Em abril deste ano, informações apresentadas no processo indicavam aproximadamente 301 trabalhadores entre ativos e afastados nas unidades de Campo Alegre e Caçador.
Pandemia agravou dificuldades financeiras
Os problemas financeiros começaram a se aprofundar a partir de 2021. Segundo informações apresentadas pela própria empresa no processo de recuperação judicial, a pandemia provocou dificuldades na logística internacional, com falta de contêineres, atrasos nos portos e forte aumento nos custos de transporte marítimo.
Em determinado período, o custo de transporte de um contêiner teria chegado a aproximadamente US$ 10 mil, quase sete vezes o valor anterior à pandemia.
A dificuldade para embarcar os móveis produzidos também provocou falta de espaço para armazenamento e paralisações temporárias.
Nos anos seguintes, a empresa ainda enfrentou redução das exportações, juros elevados e aumento nos preços de matérias-primas e insumos, como madeira, MDF, ferragens, vernizes, energia, combustível e transporte.
Justiça inicia processo de liquidação dos bens
Com a falência decretada, começa agora uma nova etapa para a empresa. A administração judicial deverá apresentar um planejamento para transformar os bens remanescentes em recursos destinados aos credores.
A decisão estabelece prazo de 60 dias para a apresentação desse planejamento, com previsão de alienação dos ativos em até 180 dias.
A Justiça também determinou a elaboração de um relatório para investigar as causas da falência e eventuais responsabilidades civis ou penais.
Os credores, por sua vez, poderão apresentar habilitações e contestações dentro dos prazos estabelecidos no processo.