A Operação Pão e Circo, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO), trouxe novos desdobramentos para um debate que já vinha movimentando Ituporanga desde a realização da 28ª Festa Nacional da Cebola. Dois empresários que protagonizaram as discussões públicas sobre a licitação do evento passaram a integrar o rol de investigados na operação que apura um suposto esquema de fraude em licitações de eventos públicos em Santa Catarina.
Entre eles está José Clemir Spinelli, conhecido como “Peixinho”, apontado pelo Ministério Público como um dos líderes da organização investigada e sócio das empresas SP Eventos/B7 Eventos. Também figura entre os investigados Éder Coelho, sócio da E3 Eventos, apontado na investigação por suposta participação na simulação de concorrência em processos licitatórios.
Spinelli foi defendido pelo prefeito antes da operação
No dia 30 de abril de 2026, pouco mais de dois meses antes da deflagração da Operação Pão e Circo, o prefeito de Ituporanga, Geison Kurtz (PP), o secretário municipal de Turismo, Paulo Ribeiro, e o empresário José Clemir Spinelli participaram do programa Café com João, da Rádio Sintonia.
Durante mais de uma hora de entrevista, os três defenderam a legalidade da licitação e da execução da Festa Nacional da Cebola, respondendo às denúncias apresentadas por uma empresa concorrente.
Na ocasião, o prefeito afirmou que a denúncia havia sido feita pelo empresário que perdeu a licitação.
“Quem fez a denúncia foi o rapaz que perdeu a licitação. (…) Automaticamente já cai em descrédito a própria denúncia dele.”
Geison também declarou que estava tranquilo quanto às investigações e informou que a Prefeitura criou uma comissão formada por cinco servidores efetivos para conferir todos os itens apontados.
O secretário Paulo Ribeiro explicou que o contrato envolvia 36 objetos distintos, entre estruturas, iluminação, sonorização, segurança, tendas, shows e demais serviços. Segundo ele, diversas alterações ocorreram durante a montagem da festa por questões operacionais, sem prejuízo ao objeto contratado.
Após a conferência realizada pela comissão municipal, a Prefeitura concluiu que existiriam diferenças de aproximadamente R$ 12.027, valor muito inferior ao apontado pela fiscalização da Câmara de Vereadores.
Outro argumento utilizado pela administração foi o aspecto financeiro da contratação. Conforme os entrevistados, o edital previa um aporte municipal de aproximadamente R$ 1,4 milhão, porém a proposta vencedora apresentada pela Spinelli Produções foi de cerca de R$ 723 mil, reduzindo significativamente o valor desembolsado pelo município.
Durante a entrevista, José Clemir Spinelli afirmou que sua empresa cumpriu integralmente todas as obrigações contratuais e sustentou que a qualidade da estrutura foi reconhecida inclusive pelos artistas nacionais que participaram do evento.
Ao final do programa, o prefeito fez uma declaração que ganhou repercussão após a prisão preventiva do empresário durante a Operação Pão e Circo.
“Que venha ano que vem, que vença também a licitação e cale a boca de muitos também. Porque muitos torcem a favor, mas muitos torcem contra. E vamos devolver essa torcida contra com trabalho.”
Sessenta e oito dias depois dessa entrevista, o GAECO cumpriu mandado de prisão preventiva contra José Clemir Spinelli.
Câmara apontou diferença de mais de meio milhão
A contratação da Spinelli Produções para a realização da Festa Nacional da Cebola já vinha sendo alvo de questionamentos desde o encerramento do evento.
A empresa venceu a licitação com proposta de aproximadamente R$ 723 mil de recursos municipais.
Durante a fiscalização realizada na festa, vereadores apontaram que parte da estrutura prevista no contrato não teria sido instalada.
Posteriormente, um relatório elaborado pela Câmara de Vereadores estimou uma diferença de aproximadamente R$ 526 mil entre os itens contratados e aqueles que teriam sido efetivamente entregues.
A Prefeitura, entretanto, discordou da conclusão e reconheceu apenas cerca de R$ 12.027 em inconsistências, mantendo o pagamento do restante do contrato.
Outro ponto discutido durante todo o processo foi a documentação técnica apresentada pela empresa vencedora.
Conforme divulgado anteriormente, a Spinelli Produções apresentou um protocolo referente a um atestado técnico exigido no edital. Dias depois, o CREA-SC rejeitou o documento apresentado. Apesar disso, a contratação foi mantida pela administração municipal.
Em paralelo, o prefeito Geison Kurtz, o secretário de Turismo Paulo Ribeiro e o pregoeiro do município passaram a responder a uma ação popular relacionada ao processo de contratação da empresa.
Éder Coelho apresentou as denúncias em entrevista
Pouco mais de duas semanas após a entrevista concedida pela administração municipal, foi a vez de Éder Coelho, representante da E3 Eventos, participar do programa Café com João, no dia 13 de maio de 2026.
Durante a entrevista, o empresário afirmou que a intenção da empresa nunca foi impedir a realização da Festa da Cebola, mas questionar a legalidade da licitação.
Segundo ele, a empresa vencedora teria sido habilitada sem apresentar toda a documentação técnica exigida pelo edital.
Entre os pontos citados estavam supostas ausências de atestados de capacidade técnica para determinadas estruturas, documentação de profissionais especializados, certificados de segurança e outros documentos técnicos.
Éder também afirmou que a E3 Eventos apresentou recursos administrativos e posteriormente encaminhou o caso aos órgãos competentes por entender que as irregularidades não haviam sido corrigidas durante a licitação.
O empresário ainda levantou questionamentos sobre documentos ligados ao plano de sustentabilidade, mencionando suspeitas de falsidade documental, além de apontar possíveis diferenças entre a estrutura prevista no contrato e a efetivamente instalada durante o evento.
Também questionou valores relacionados ao show do cantor Luan Santana e comentou rumores sobre eventual aditivo contratual, ressaltando que caberia aos órgãos de controle e ao Poder Judiciário verificar a procedência das denúncias.
Ao final da entrevista, informou que toda a documentação havia sido encaminhada ao Ministério Público, além de outras medidas judiciais e administrativas.
Operação Pão e Circo investiga suposto cartel
Com a deflagração da Operação Pão e Circo, o Ministério Público passou a investigar um suposto esquema de direcionamento de licitações, formação de cartel, fraude em certames públicos, superfaturamento e organização criminosa envolvendo eventos realizados em municípios catarinenses.
Segundo o Ministério Público, José Clemir Spinelli é apontado como um dos líderes do grupo investigado.
Já Éder Coelho, da E3 Eventos, também figura entre os investigados por suposta participação na simulação de concorrência entre empresas em processos licitatórios.
O Ministério Público esclareceu, entretanto, que o caso específico da Festa Nacional da Cebola não integra, até o momento, os fatos investigados nesta fase da Operação Pão e Circo, embora documentos relacionados ao evento tenham sido mencionados durante as investigações.
Outro aspecto destacado pela investigação é que a denúncia inicial envolvendo a Festa da Cebola partiu justamente de uma empresa que, segundo o próprio Ministério Público, também possuiria vínculos com o grupo investigado por fraude em licitações, indicando uma possível disputa interna entre integrantes do suposto cartel.
Fonte: Jornal Razão/Rádio Sintonia FM