Após 22 anos de abandono, promessas e descaso do poder público, a maior barragem de Santa Catarina finalmente entra em reforma justamente quando o Estado volta a conviver com o temor de um novo Super El Niño. A obra na Barragem Norte, em José Boiteux, no Alto Vale, surge mais como uma corrida contra o tempo do que resultado de planejamento eficiente.
A estrutura, considerada a principal proteção contra enchentes em Santa Catarina, chega a 2026 carregando problemas graves: uma comporta emperrada desde 2023, casa de máquinas praticamente destruída e operação dependente de caminhões hidráulicos para acionamento manual. Um cenário alarmante para um equipamento que deveria ser prioridade absoluta após as tragédias climáticas recentes.
Enquanto especialistas alertam para o aumento progressivo das chuvas a partir dos próximos meses, o Estado admite trabalhar “com o pior cenário”. A fala do secretário estadual da Proteção e Defesa Civil, Fabiano de Souza, escancara a preocupação diante da possibilidade de chuvas extremas entre a primavera e o verão.
O problema é que Santa Catarina chega novamente atrasada. Somente agora, após décadas de espera e depois da barragem verter pela primeira vez na história durante o El Niño de 2023, as obras começam a sair do papel.
A primeira missão da empresa contratada será destravar a comporta parada há quase três anos. A situação expõe o nível de precariedade da manutenção.
Além disso, a antiga casa de máquinas foi completamente depredada. Hoje, qualquer abertura ou fechamento de comportas depende de um sistema improvisado, operado manualmente no local. Em pleno 2026, a maior barragem do Estado ainda funciona de maneira emergencial.
A promessa é de modernização, com operação remota e sistema automatizado diretamente da sede da Defesa Civil. Mas o prazo das obras é de 12 meses — justamente em meio ao período mais crítico previsto para o El Niño.
A preocupação aumenta porque o histórico recente não tranquiliza a população. Em 2023, Santa Catarina enfrentou enchentes históricas, cidades isoladas, prejuízos bilionários e mortes. Agora, mais uma vez, o Alto Vale acompanha apreensivo se a estrutura conseguirá suportar novos eventos extremos.
O discurso oficial tenta transmitir segurança, classificando a barragem como “robusta”. Porém, robustez sem manutenção preventiva, sem operação adequada e sem investimentos contínuos se transforma em risco.
A reforma da Barragem Norte não representa apenas uma obra de infraestrutura. Ela escancara anos de negligência com a prevenção de desastres em Santa Catarina.