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Produtores de cebola não jogam produto bom fora; descarte é resultado de padrões do mercado e crise de preços
Apesar da crise, os agricultores destacam que não há irracionalidade nas decisões do campo
Redação RWTV - Alto Vale

Nos últimos dias, vídeos e publicações nas redes sociais têm sugerido que produtores de cebola de Santa Catarina estariam jogando cebolas boas fora devido ao baixo preço do produto. A informação, no entanto, não reflete a realidade do setor e tem sido classificada por produtores como distorcida e imprecisa.
Segundo esclarecimento de agricultores, o que aparece nas imagens é, na verdade, descarte, prática comum na cadeia produtiva da cebola. O descarte envolve cebolas que estão podres, fora do padrão comercial ou com pequenos defeitos visuais — como partes da casca branca — que, apesar de não comprometerem o sabor, não são aceitas pelo mercado consumidor.
“Produtor de cebola nunca vai jogar cebola boa fora. Nunca”, afirmam. A cebola de boa qualidade pode ser armazenada por meses, de dezembro até abril e, em alguns casos, até maio, justamente para aguardar melhores preços. Como o produtor já investiu no cultivo, não faz sentido descartar um produto que ainda pode gerar renda.
Em anos anteriores, mesmo o descarte tinha valor comercial, sendo destinado a indústrias de temperos ou outros usos. Porém, em 2026, o cenário é diferente. Com o preço da cebola abaixo de R$ 1,00 em muitos casos, as próprias indústrias conseguem adquirir cebola de boa qualidade a baixo custo, reduzindo a demanda pelo descarte. Além disso, uma das empresas que realizava esse processamento de forma industrial deixou de atuar, agravando o problema.
Com isso, cerealistas e produtores passaram a enfrentar outro obstáculo: o custo para descartar o material, que precisa ser levado a terrenos ou locais apropriados, gerando ainda mais prejuízo.
Produtores alertam que a interpretação equivocada das imagens — onde algumas cebolas aparentemente boas aparecem misturadas ao descarte — acabou alimentando uma fake news de grandes proporções. “Quem vê um monte de cebola jogada e aperta uma que está boa no meio, acaba achando que tudo foi descartado por causa do preço. Isso não é verdade”, reforçam.
O setor reconhece que o momento é crítico. O mercado está ruim, os preços estão baixos e muitos produtores enfrentam dificuldades financeiras. A principal demanda, segundo eles, é por apoio, refinanciamento de dívidas e políticas públicas, e não por julgamentos baseados em informações incompletas.
Apesar da crise, os agricultores destacam que não há irracionalidade nas decisões do campo. O descarte visto nas imagens é consequência de um sistema rígido de padrões comerciais e de um mercado desequilibrado — não de desperdício deliberado de alimento.
Aline Leonhardt/Vale Agrícola


