A possibilidade de formação do El Niño no segundo semestre deste ano volta a colocar o Alto Vale em estado de atenção. A lembrança das enchentes de 2023 ainda está viva: rios fora do leito, famílias desalojadas e um sistema de contenção de cheias levado ao limite. Agora, dois anos e meio depois, a dúvida é inevitável — as barragens estão realmente preparadas para um novo cenário extremo? A resposta, segundo autoridades, ainda é incerta.
Em Taió, a barragem passou por melhorias importantes após a tragédia. O sistema elétrico foi modernizado, tubulações substituídas e bombas de drenagem renovadas, com obras concluídas no fim de 2025, conforme a Defesa Civil de Santa Catarina. Mesmo assim, uma reforma estrutural mais ampla, citada pelo governo estadual em março deste ano, ainda não saiu do papel. Vale lembrar que, em outubro de 2023, o município registrou impressionantes 646,8 milímetros de chuva — um dos maiores volumes do Estado, segundo a Epagri.
O sistema de contenção da região é composto por três grandes estruturas: a Barragem Norte, em José Boiteux, Barragem Oeste, em Taió; e a Barragem Sul, em Ituporanga. Apesar da importância estratégica, nem todas apresentam o mesmo nível de segurança operacional.
Em Ituporanga, os problemas nas comportas — que vinham desde 2021 — foram solucionados. No ano passado, todas foram substituídas, inclusive as que não apresentavam falhas, e o sistema foi automatizado, permitindo operação remota, um avanço significativo em situações de emergência.
Já o cenário mais preocupante está em José Boiteux. A maior barragem do Vale enfrentou, em 2023, um episódio inédito: atingiu sua capacidade máxima e chegou a verter água. Desde então, a estrutura opera com limitações. Depredações anteriores já haviam comprometido o funcionamento, exigindo acionamento por caminhão hidráulico. Para agravar, uma das comportas segue emperrada e não abre — o que reduz drasticamente a capacidade de gerenciamento do reservatório.
A reforma da barragem de José Boiteux já tem empresa definida, com investimento de R$ 9,9 milhões — sendo R$ 5,3 milhões do governo federal e R$ 4,6 milhões do Estado. No entanto, o início das obras ainda depende da liberação de recursos federais, sem prazo confirmado. Caso seja necessário operar a barragem hoje, o controle será manual e limitado a apenas uma comporta.
Enquanto isso, promessas antigas seguem sem avanço. As minibarragens previstas para cidades como Mirim Doce, Petrolândia e Trombudo Central continuam no papel. A obra mais adiantada, em Mirim Doce, foi barrada pelo Tribunal de Contas por suspeita de sobrepreço de R$ 23,9 milhões e aguarda ajustes para nova licitação. Nas demais localidades, sequer há edital lançado.
No Médio Vale, a barragem de Botuverá ainda tenta sair do papel. A licitação, também questionada pelo TCE, passou por ajustes que reduziram custos em R$ 6,6 milhões. A previsão é de um contrato de 30 meses, mas o início das obras segue indefinido, apesar de desapropriações já realizadas.
Diante desse cenário, o Vale do Itajaí entra novamente em compasso de espera. Com estruturas parcialmente modernizadas, obras travadas e projetos atrasados, a região segue vulnerável — dependendo não apenas da força das barragens, mas também da urgência das decisões.
NSC Total/RWTV